[ arquivo ]
puerpério
-
Gravilândia
Patrícia Azevedo da SilvaQuando engravidei, o mundo parou numa espécie de fricção de onde se soltaram uns pós e – earthseeds – caíram na terra. […]
-
Falar o quê?
Débora BraunQuando apenas balbucio, uso as palavras sem dominar completamente o seu sentido. Não sei nomear o que sinto. Luz e escuro, dia e noite, quente e frio, aberto e fechado, prazer e dor. […]
-
Departamento de especulação [fragmento]
Jenny OffillOs olhos da bebê eram escuros, quase pretos, e, quando eu a amamentava de madrugada, ela olhava para mim de um jeito surpreso, náufrago, como se meu corpo fosse a ilha para onde ela tivesse sido arrastada. […]
-
Tom Sereno
Fernanda de Almeidame, Sereno. Que eu chamo baixinho enquanto deixo a água cair barulhenta sobre a barriga redonda e imensa. Barriga-casa. Corpo-mãe. Teus chutes inesperados enquanto meu sono chega. O estômago esmagado, tentando digerir a janta e os dias – essa contagem regressiva que tantas vezes me apavora. […]
-
Na ilha, algum farol
Roberta FerrazAcabo de sair de um encontro virtual com outras mulheres, no qual lhes disse, comovida, que a maternidade me bagunçou completamente. Comecei a escrever este texto sob o impacto dessa conversa e de dentro de um confinamento, devido à pandemia de Covid-19, que já soma 86 dias, a grande maioria deles vivida no meu apartamento, […]
-
Canções puerperais
Daisy Serenaeu queria escrever uns versos pra matar o tempo, a saudade, a vontade. pra saciar a sede, o desespero, a febre, o silêncio. eu queria escrever umas palavras ainda que soltas, qualquer coisa que me lembrasse que eu ainda tô aqui, aqui, aqui dentro, como eu tô fora, fervendo.
mas meu filho acordou dez vezes […] -
Talvez ela não precise de mim [fragmento]
Anna Virginia Balloussier3 de março de 2020 Dói tudo lá embaixo. Onde antes existia uma vagina, um ânus, um períneo, agora parece existir um baiacu, o peixe que infla quando se sente ameaçado por um predador. Voltamos para o quarto há pouco. […]